Resumos

Idade do Bronze – Continuidades e Descontinuidades em Trás-os-Montes

e Alto Douro

 

 Alexandra Vieira *

 

Resumo

 

O estudo da Idade do Bronze, designadamente das suas continuidades e descontinuidades, numa área que abrange grande parte da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, não se afigura como tarefa fácil. De seguida, passaremos a explicar as razões que nos levam a fazer tal afirmação.

Para este trabalho tivemos em consideração os limites administrativos da região de Trás-os-Montes e Alto Douro a Oeste, Este e Norte, ficando o limite Sul definido pelo rio Douro, já que a região a Sul do rio irá ser objeto de análise noutro artigo.

Trabalhamos com dados publicados até finais de 2012, não tendo conhecimento das novas descobertas no Vale do Sabor, razão pela qual abdicamos de analisar os concelhos de Torre de Moncorvo, Alfândega da Fé, Freixo de Espada à Cinta e parte do concelho de Vila Flor, e que irão ser igualmente analisados noutro artigo.

Vejamos, de um modo sucinto, os principais aspetos da Idade do Bronze na região em análise:

Foram inventariados vários sítios com elementos que apontam para a existência de vestígios da “Idade do Bronze”, mas o problema que se coloca é que esses dados resultam quase exclusivamente de trabalhos de prospeção não sistemática. A existência de materiais metálicos (bronze), os tipos de pastas e tipos de organizações decorativas nas cerâmicas, a falta de monumentalidade de alguns sepulcros e a implantação de determinados recintos na paisagem, constituem os elementos “caracterizadores” desses sítios. Consideramos que estes dados devem ser colocados em standby até que existam intervenções nesses sítios, consolidando o conhecimento sobre essas realidades.

Existem adentro desta região algumas áreas que foram alvo de estudos mais sistemáticos, destacando-se o trabalho de Ana Bettencourt e seus colaboradores, em Montalegre; Maria de Jesus Sanches, com projetos de investigação em Mirandela, Mogadouro e Murça; Susana Oliveira Jorge em Chaves e Vila Pouca de Aguiar; e, por último, o Projeto Terras Quentes em Macedo de Cavaleiros, no qual se integra o estudo da Fraga dos Corvos por Senna-Martinez e seus colaboradores. A Fraga dos Corvos apresenta-se como um local onde se detetaram vestígios da metalurgia do Bronze, algo inédito na região.

A maioria destes sítios não apresenta unicamente vestígios da Idade do Bronze. Temos casos em que a ocupação da Idade do Bronze se sobrepõe a vestígios mais antigos, Neolíticos e/ou Calcolíticos; ou, por outro lado, vestígios da Idade do Bronze, que precedem ocupações da Idade do Ferro.

Destacamos a existência de vários achados isolados de objetos metálicos, na sua maioria machados em bronze, cujo contexto é desconhecido. São peças encontradas por acaso e doadas a museus locais. Alguns deles integrariam depósitos “votivos”.

Existem ainda casos de objetos metálicos encontrados em povoados fortificados, supostamente castrejos.

A Lorga de Dine (Vinhais) e a Quinta de S. Lourenço 2 (Bragança), são dois sítios arqueológicos que se distinguem dos demais. A Lorga de Dine é uma gruta onde foram recolhidos numerosos materiais associados ao IIIº e IIº Milénios a.C., assim como ossos humanos e de animais. Alguns materiais apontam para uma possível fase final de ocupação durante o Bronze Final/Idade do Ferro.

A Quinta de S. Lourenço 2 é, até ao momento, o único sítio na região onde foram identificadas e escavadas fossas associadas a lareiras, e ainda materiais cerâmicos enquadráveis no Iº Milénio a.C.

Foram encontradas, em Montalegre e Chaves, estátuas-menires. Existe a possibilidade de existirem mais duas, uma em Ribeira de Pena e outra em Vila Pouca de Aguiar.

Estes elementos parecem situar-se perto do rio Tâmega, não se encontrando em mais nenhuma área da região estudada.

Continuidades, descontinuidades. O que desaparece, o que permanece e o que aparece de novo neste período cronológico na região em análise. Considerando o quadro de referência que acabamos de apresentar, teremos nós dados suficientes para falar das continuidades e descontinuidades da Idade do Bronze em Trás-os-Montes e Alto Douro?

 

* Centro de Estudos em Arqueologia, Arte e Ciências do Património (CEAACP).

 

 

 

Continuidades e descontinuidades entre o 3º e a primeira metade do 2º milénio a.n.e. no Sul de Portugal

 

 António Carlos Valera *

 

Resumo

 

A comunicação abordará a transição do 3º para o 2º milénio AC e a primeira metade deste último, focando a problemática da mudança cosmogónica entre o Calcolítico e a Idade do Bronze no sul de Portugal, com particular incidência no interior alentejano.

Esta abordagem centrar-se-á na análise de dinâmicas de rutura e continuidade que podem ser hoje percebidas a partir das evidências empíricas disponíveis, nomeadamente as que têm vindo a revolucionar a perceção que se tinha da Pré-História Recente nesta região.

Primeiro focar-se-á o problema do desaparecimento dos recintos de fossos no final do 3º milénio, momento em que se observam as últimas aberturas de fossos, nalguns casos reveladoras de formulações discursivas em que esta tradição parece surgir ao serviço da legitimação das mudanças em curso. Procurar-se-á sustentar a vinculação dos recintos de fossos a uma cosmogonia neolítica, cujo desaparecimento é responsabilizado pela abrupta interrupção desta tradição arquitetónica.

Em segundo, procurar-se-á demonstrar a significativa diversidade ao nível das arquiteturas funerárias durante a primeira metade do 2º milénio AC. Argumentar-se-á que essa diversidade traduz uma continuidade relativamente ao Calcolítico em vários aspetos (como diversidade arquitetónica e de espaços funerários, ou a criação de espaço simbólico de longa duração), mas sublinhar-se-á a afirmação de mudanças significativas que, sendo já percetíveis na segunda metade do 3º milénio, se afirmam na primeira metade do segundo. Nomeadamente a questão da clara afirmação dos enterramentos individuais ou múltiplos em detrimento dos coletivos, assim como uma redução das evidências de práticas de manipulação de restos humanos e um maior formalismo nas deposições funerárias.

Também estas alterações serão relacionadas com as alterações cosmogónicas em curso, vistas como agentes ativos no processo de mudança, mais do que simples reflexos do mesmo.

 

* Núcleo de Investigação Arqueológica – ERA Arqueologia S.A.

 

 

 

A Problemática das Continuidades e Descontinuidades na Idade do Bronze no Médio Tejo Português

 

Carlos Batata*1, Álvaro Batista*2, Ana Cruz*3, Davide Delfino*4, Ana Graça*3, Filomena Gaspar*2

 

Resumo

 

O Médio Tejo Português é uma área geográfica de uma grande diversidade geomorfológica mas que contém em si um elemento comum: a bacia hidrográfica do rio Tejo.

 

A conjugação de litologias e hidrografias proporcionou às várias comunidades que se estabeleceram neste território variadas matérias-primas a explorar, bem como determinadas estratégias de exploração do espaço no âmbito económico, que determinaram também as suas estratégias de captação de recursos tal como as possibilidades ilimitadas de troca de pessoas e bens.

 

Acresce que, do ponto de vista geomorfológico, esta região, central em território português, funcionou como placa giratória quer em direcção ao litoral, quer em direcção ao interior tornando-se também aberta a influências externas como as atlânticas, mediterrânicas ou continentais.

 

O desenvolvimento, apogeu e decadência da Idade do Bronze nesta reduzida faixa territorial não foi excepção relativamente a outros períodos da Pré-História recente.

 

Ao abordar a temática das continuidades e/ou descontinuidades nesta etapa final da Pré-História recente necessário se torna proceder antes de mais a uma análise e caracterização temporal deste período com base em datações. Infelizmente, grande parte dos arqueossítios aqui analisados não possuem datação absoluta pelo que nos teremos que cingir ao plano das datações relativas com base na crono-tipologia.

 

As datações relativas são realizadas com o suporte das formas cerâmicas, dos metais e das arquitecturas.

 

É pois, com base nas crono-tipologias, que propomos para o Médio Tejo Português uma periodização ternária na qual englobamos a fase inicial e média da Idade do Bronze num chamado Bronze Pleno, portanto fase A e para a fase final da Idade do Bronze, uma bipartição em Idade do Bronze Final I, fase B e Idade do Bronze Final II, fase C.

 

Categorização Relativa

Cronologia Relativa

Fases

Bronze Pleno

Séc. XIX – XII a.C.

A

Bronze Final I

Séc. XII – X a. C.

B

Bronze Final II

Séc. X – VII a. C.

C

 

Esta organização ternária da Idade do Bronze baseia-se em arqueossítios caracterizados como Povoados de Altura Não Amuralhados (tipo 1), Povoados de Altura Muralhados (tipo 2), Casais Agrícolas (tipo 3), Sítios Funerários (tipo 4), Conheiras, consideradas geomonumentos; tal como as conhecemos hoje não são todas de época romana. As de grande volume são romanas e estão longe dos povoados da Idade do Bronze, enquanto junto a estes existem conheiras de explorações aluvionares pouco profundas e de menor volume, como é o caso das explorações aluvionares da Zona Industrial de Abrantes, provavelmente ligadas ao povoado fortificado do Castelo de Abrantes (tipo 5) e Depósito de Metais (tipo 6).

 

Relativamente ao tipo 1 foram identificados em prospecção, sobretudo no concelho de Abrantes (CANDEIAS et alli, 2009), locais não amuralhados, mas de altitude (sendo esta relativa à própria altimetria do território envolvente), com uma visibilidade quase directa para o vale aluvionar do rio Tejo nos quais foram recolhidas cerâmicas que indiciam formas típicas da Idade do Bronze Pleno. De salientar que ainda em recolhas de prospecção foram identificados materiais cerâmicos e líticos de épocas anteriores como o Calcolítico e o Neolítico, fazendo-nos supor que terá existido uma continuidade na ocupação destes sítios desde a Pré-História recente mais recuada. Nesta categoria podemos ainda incluir o Povoado do Agroal (LILLIOS, 1991) localizado no concelho de Ourém, este intervencionado e que produziu uma datação absoluta (GX-15390; 3.560±145 BP; 2.360 - 1.520 1 B C14 cal B.C. 2 sigma; fauna; Lillios, 1991), bem assim como datações relativas com base nas formas cerâmicas.

 

Relativamente ao tipo 2, contamos com sítios intervencionados e com implantação em altura, possuindo, consoante os casos, panos de muralha mais ou menos bem conservados. Exemplo disso são o Castelo de Abrantes (PORTOCARRERO, DELFINO, GASPAR c.d.s) com muralha e materiais cerâmicos que apontam para a Idade do Bronze Final I, Cabeço das Mós, no Sardoal (FÉLIX, 1999) com formas cerâmicas que apontam para a Idade do Bronze Final I e II, Cerro do Castelo, em Vila de Rei (BATATA, GASPAR 2013; BATATA 2006) com cerâmicas e datações absolutas (CSIC-1222; 2.761±40 BP; 990-821 cal B.C. 2 sigma e SAC-1511; 2.930±60 BP; 1310-926 cal B.C. 2 sigma) que o colocam na Idade do Bronze Pleno e Final I e II, Castelo Velho do Caratão (BUBNER, 1984; DELFINO et alli. 2013) com materiais cerâmicos e metal, que o colocam na Idade do Bronze Pleno e no Bronze Final I e II, Castelo Velho da Zimbreira (DELFINO, OOSTERBEEK 2011, 2012, 2013) com cerâmicas que se enquadram quer na Idade do Bronze Final I quer na II. Todos estes sítios estão implantados em altura detendo, portanto, um amplo controlo do território envolvente, acedendo facilmente a matérias-primas, rede hidrográfica local, terrenos férteis de cultivo, massas florestais abundantes.

 

O tipo 3 caracteriza-se por sítios que estão topograficamente em áreas de baixa altitude mas implantados em ambientes ecótonos facilitando, portanto, o acesso aos recursos alimentares básicos.

 

Contam-se nesta categoria sítios implantados no vale fértil de terraços quaternários do Tejo (CANDEIAS, et alli, 2009), são sítios apenas prospectados. Quinta da Pedreira (FÉLIX, 1997, 1999, 2000, 2006) foi escavado mas não proporcionou datações absolutas possuindo artefactos em metal que nos permitem colocar este sítio na Idade do Bronze Final I e II.

 

Ao tipo 4 pertencem sítios que estão localizados em rios subsidiários do rio Tejo como sejam o rio Nabão e o rio Zêzere. No plano das continuidades vamos encontrar, quer no vale do rio Nabão, quer no vale do rio Zêzere, a Gruta de Nª. Sª das Lapas (OOSTERBEEK; 1994) com enterramento individual e machado plano de cobre arsenical, a Gruta do Morgado Superior (CRUZ et alli, 2012) possuindo pequenas taças de carena baixa e uma ponta de seta com barbelas e espigão em losango e a Anta 1 de Val da Laje (OOSTERBEEK, CRUZ, FÉLIX, 1992) possuindo uma pequena fossa de enterramento individual e pequenas taças de carena baixa, brunidas, com uma continuidade de ocupação funerária que se estende desde o Neolítico Antigo Evolucionado até ao início da Idade do Bronze Pleno. Já em ambiente interior, na Serra d’Aire e Candeeiros, vamos encontrar ocupação na Lapa Comprida do Castelejo (GRAÇA e CRUZ, 2008; GRAÇA e CRUZ, 2013) que possui uma datação absoluta de (Beta – 276993; 3.410 ±40 BP; 1.870-1.8620 cal B.C.) e pequenas taças de carena baixa e a Lapa Rasteira do Castelejo (GRAÇA,CRUZ, 2013) que possui materiais cerâmicos com carena baixa e brunidos. No vale do rio Tejo são colocados em evidência o Monumento Funerário de Colos (GASPAR, 2001) com base nas formas cerâmicas exumadas (de salientar a particularidade de este sítio ter sido um depósito crematório) e a Anta da Foz do Rio Frio (PEREIRA, 1970) que também eles possuem para além de materiais típicos do Bronze Pleno, como cerâmicas e metais, materiais de épocas anteriores e características do megalitismo. Já relativamente aos tumuli, que surgem com bastante frequência em território português, para além de uma arquitectura específica que faz lembrar as mamoas megalíticas, vamos encontrar a incineração contentorizada e individual muito diferente do exemplo de Colos. Souto 1 (CRUZ, 2011) é o sítio-paradigma para estes tumuli possuindo uma datação absoluta (Beta-280041 2840±40 BP 1120-910; Homo – urna; A.M.S.; Cruz, 2010) que o coloca na Idade do Bronze Final I.

 

Ao tipo 5 pertencem os sítios identificados na Carta Arqueológica do Concelho de Abrantes (CANDEIAS et alli, 2009) que, juntamente com o ouro aluvionar do vale do rio Tejo, terão sido exploradas já na fase da Idade do Bronze muito embora não nos seja possível determinar com precisão a que etapa pertencem; temos ainda identificada a Conheira do Penhascoso em Mação, variadas conheiras na ribeira do Caratão e em Vale do Junco, bem como no Concelho do Sardoal e no Concelho de Vila de Rei (BATATA 2005).

 

Ao tipo 6 pertence o sítio do Porto do Concelho, em Mação, um depósito de metais rico e típico de uma Idade do Bronze Final II (JALHAY 1944; PEREIRA 1970).

 

Face a este panorama traçado com base em sítios prospectados e intervencionados poderemos dizer que, relativamente aos monumentos funerários, é perceptível uma continuidade ao longo da Idade do Bronze patente na visibilidade proporcionada pela matéria-prima das suas construções (clastos em quartzo leitoso) sendo a sua implantação destacada nas linhas de festo. Esta evidência arqueológica sobre como a morte foi tratada demonstra-nos ter existido uma continuidade e reutilização até uma fase tardia dos monumentos megalíticos ao mesmo tempo que vemos surgir no Bronze Pleno o fenómeno do enterramento individual em cistas. Esta representa um primeiro passo para a ruptura definitiva que surgirá mais tarde já em plena Idade do Bronze Final II, muito embora seja já entrevista na Idade do Bronze Final I com a manifestação da construção dos tumuli. A continuidade que é apercebida, seja em ambiente de cista, seja em ambiente de tumulus, é uma fraca visibilidade dos monumentos funerários que choca claramente com a visibilidade marcante de fases anteriores na Pré-História recente.

 

É arqueologicamente comprovada uma ruptura ideológica que transparece na forma de tratamento da morte.

 

Quanto aos povoados observamos que entre o Bronze Final I e o Bronze Final II sucede um particular evento que deve ser sublinhado. A estratégia de povoamento, embora se mantenha em altura diverge num ponto decisivo, ou seja, na construção de muralhas fazendo com que os povoados possuam uma dupla função, de local de habitação e de atalaia em simultâneo. Uma questão a discutir será o porquê de se construírem panos de muralha ladeando, por vezes, acidente geomorfológicos. Estas construções poderão ter sido ainda um elemento dissuasor patente na paisagem, para além de terem sido um elemento de protecção, ainda que psicológico, pois apesar de falarmos de sociedades guerreiras não possuímos evidências arqueológicas de guerra. É ainda reforçada a estratégia de completa visibilidade do território na ordem dos 10 quilómetros em redor do povoado e o acesso fácil a água. Poderemos ainda pensar que, em caso de perigo, as populações instaladas em casais se refugiassem no povoado podendo, ainda que sejam inibidas as analogias, funcionar como o encastelamento visível na Idade Média.

 

Na Idade do Bronze Final II é-nos permitido observar a implantação de povoados em associação geográfica a jazidas mineiras e a conheiras, com especial destaque para o ouro. É ainda a fase em que observamos as primeiras instalações de fenícios em Santarém (ARRUDA, 2005), na qual predizemos as trocas indirectas de materiais orientalizantes patentes no Cabeço das Mós, na Quinta da Pedreira e no Castelo de Abrantes (DELFINO, 2012). É ainda na Idade do Bronze Final II que surge a metalurgia do bronze exumada no Caratão, na Pedreira e em Porto do Concelho.

 

Ainda que reconheçamos a existência de artefactos em metal em bronze parece-nos que seriam populações que os utilizavam e não que os produziam. Esta afirmação relaciona-se com a provável reciclagem de metais que encontramos no Caratão a partir do armazenamento de sucatas e não a partir do próprio mineral (DELFINO 2013). Quanto ao cobre, não hesitamos em pensar que estas comunidades seriam independentes de transacções comerciais uma vez que poderiam ter acesso fácil às minas existentes em Vila Velha de Ródão apesar de arqueologicamente não terem sido encontrados materiais da Idade do Bronze associadas a estas minas (BATATA, 2013)). Contudo, seriam completamente dependentes relativamente ao acesso ao estanho o que, em nossa opinião, terá criado a necessidade de negociação de poder, ou seja, o que seria oferecido em troca do estanho, seria talvez seria talvez o ouro pois é muito abundante nesta área, o controlo eficaz da auto-estrada que representa o rio Tejo, criando assim intermediários por leap frog ou ainda a troca de ouro aluvionar, sendo esta uma matéria-prima autóctone. Em resumo teríamos portanto o ouro e a passagem pelo Tejo em troca de estanho ou sucadas a reciclar.

 

Também os espaços de acção social poderiam ter tido lugar não só no processo quotidiano destas populações, mas também no próprio processo mortuário que deveria ter envolvido toda a comunidade na preparação do cadáver, na construção da pira funerária, na recolha das cinzas e dos artefactos, na sua contentorização e finalmente na construção de pequenas mamoas. Seriam procedimentos com uma raiz autóctone, afastados da influência continental dos campos de urnas ou da influência mediterrânica.

 

*1 OZECARUS, Serviços Arqueológicos, Lda.

*2 Câmara Municipal de Abrantes.

*3 Centro de Pré-História do Instituto Politécnico de Tomar.

*4 Câmara Municipal de Abrantes: projecto MIAA - Museu Ibérico de Arqueologia e Arte.

 

 

 

Arquitecturas e práticas funerárias da Idade do Bronze na margem

esquerda do Guadiana: o caso de Torre Velha 3

 

 Eduardo Porfírio *

 

Resumo

 

O sítio Torre Velha 3 localiza-se no concelho de Serpa, na margem esquerda do Guadiana, tendo sido intervencionado no âmbito de um programa de minimização de impactes sobre o património cultural decorrente da construção da barragem da Laje, inserida no empreendimento de Alqueva. A extensa escavação em área efectuada, cerca de 14 000 m², possibilitou a identificação de várias fases de ocupação, entre as quais se destaca uma datada da Idade do Bronze Pleno que consiste numa necrópole de 25 hipogeus.

Muito embora o estudo desta necrópole não esteja ainda concluído, pretende-se nesta comunicação realizar uma síntese do conhecimento entretanto produzido, abordando as principais características da arquitectura, do espólio e dos rituais funerários. Em seguida procurar-se-á contextualizar a necrópole de hipogeus de Torre Velha 3 com aquilo que é conhecido relativamente ao mundo da morte da Idade do Bronze da margem esquerda do Guadiana. Esta zona caracteriza-se, como é sabido, por um grande polimorfismo das práticas funerárias, evidente também ao nível da arquitectura das sepulturas. De facto, para além dos hipogeus - identificados inicialmente em Belmeque (Vale de Vargo, Serpa) e posteriormente numa série de outros sítios como Torre Velha 3 (São Salvador, Serpa), Outeiro Alto 2 (Brinches, Serpa), Montinhos 6 ou Horta do Folgão (São Salvador, Serpa), existem também cistas isoladas, ou agrupadas, com ou sem tumulus, como por exemplo a sepultura da Herdade do Montinho (Vale de Vargo, Serpa) na necrópole do Talho do Chaparrinho (Vila Verde de Ficalho, Serpa), na sepultura do Carapetal (Vila Nova de São Bento, Serpa), na provável necrópole do Monte de Santa Justa (São Salvador, Serpa) ou no Barranco do Salto (Vila Verde de Ficalho, Serpa). Surgem também cistas inseridas em monumentos que evocam os da necrópole de Atalaia em Ourique, como é o caso das da necrópole dos Carapinhais (Sobral da Adiça, Moura).

As datações de radiocarbono realizadas até ao momento demonstram que tanto hipogeus como cistas serão contemporâneos. Para além do mais, registaram-se também em Torre Velha 3 (São Salvador, Serpa) inumações em “fossas de tipo silo”, sem espólio funerário associado, que forneceram datações de radiocarbono estatisticamente semelhantes às dos enterramentos em hipogeu e cista. Esta é uma prática cujas origens remontam ao período Neolítico, tal como a construção de hipogeus, muito embora morfologicamente diferenciados dos da Idade do Bronze.

Apesar da variabilidade evidente ao nível das arquitecturas funerárias, algumas características do ritual fúnebre são transversais ao mundo das cistas e ao dos hipogeus. Entre estas características podem referir-se, para além da posição fetal utilizada para a maioria das inumações, a identificação nos dois tipos de sepultura de dádivas funerárias metálicas e cerâmicas de tipologias idênticas, ou ainda, o emprego de substâncias orgânicas de origem animal para conferir propriedades hidrófugas à selagem de cistas e de hipogeus.

Outros elementos do registo funerário dos hipogeus de Torre Velha 3 remetem para a existência de contactos de âmbito suprarregional, como por exemplo, a prática ritualizada da comensalidade, a presença de taças de pé alto com paralelos nas cerâmicas argáricas, ou ainda a existência de artefactos que apresentam ligas de bronze com teores de estanho muito normalizados, que são típicos de metalurgias muito desenvolvidas.

Na estrutura cultural das comunidades da Idade do Bronze que ocuparam a margem esquerda do Guadiana, parecem ter desempenhado papel determinante duas componentes, das quais uma enraíza-se profundamente no substrato ancestral destas populações, enquanto uma outra revela contactos de âmbito suprarregional com os focos populacionais mais dinâmicos do seu tempo.

 

* Palimpsesto Lda. Projeto Outeiro do Circo. eduardoporfirio@palimpsesto.pt.

 

 

 

A representação da Idade do Bronze nas construções funerárias da região de Castelo Branco

 

 João Caninas, Francisco Henriques *

 

Resumo

 

A Associação de Estudos do Alto Tejo tem promovido o conhecimento acerca do património arqueológico em vários concelhos do distrito de Castelo Branco nos últimos quarenta anos. Nesse quadro merecem destaque as acções de prospecção nos concelhos de Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Proença-a-Nova, Idanha-a-Nova e Oleiros. Nos inventários assim obtidos destacam-se, pelo seu elevado número, as estruturas funerárias atribuíveis à Pré-História Recente.

Com este texto pretende-se fazer uma síntese de conhecimentos acerca das manifestações funerárias atribuíveis à Idade do Bronze, seja na reutilização de estruturas antecedentes, seja na forma de construções autónomas ou de achados isolados de particular relevância, como são os casos de duas estelas.

A reutilização de estruturas antecedentes encontra-se documentada num pequeno conjunto de peças em metal (punhal e uma ponta de seta), cerâmica (fragmentos de recipientes diversos) e pedra (elementos de foice), obtidas no decurso da escavação de sete sepulturas sob montículo, nos concelhos de Idanha-a-Nova e Oleiros.

No que concerne às construções autónomas, pretende-se reanalisar e discutir a função das chamadas “cabanas” circulares do Monte de São Domingos (Castelo Branco), o conjunto de 13 pequenos tumuli do Mulato (Vila Velha de Ródão) e as estruturas do Piornal e da Côca (Idanha-a-Nova), cuja morfologia apresenta semelhanças com as “cabanas” do Monte de São Domingos. Na região também se conhecem outros tumuli, com cista, cuja morfologia sugere uma atribuição directa à Idade do Bronze.

Os achados isolados mais relevantes correspondem a monumentos de forte carga simbólica, entre os quais se destacam uma estela antropomórfica diademada e uma estela de guerreiro, ambas descobertos o sítio de Zebros (Idanha-a-Nova), contextualizadas por pequenos tumuli. Refiram-se ainda as clássicas estelas de São Martinho (Castelo Branco).

A informação disponível acerca desta temática, no território indicado, na região de Castelo Branco, deve considerar-se escassa, não tanto por falta de arqueossítios correlativos ou com potencial interesse, antes por uma menor incidência da investigação.

 

* Associação de Estudos do Alto Tejo.

 

 

 

A Idade do Bronze no Alto Douro Português; os discursos possíveis

 

 João Muralha Cardoso *

 

Resumo

 

A grande maioria dos autores ao referir-se à Idade do Bronze em Portugal, e mesmo à Península Ibérica, aludem imediatamente a um fenómeno de grande diversidade geográfica/regional e aceitam, igualmente a existência de um período crescente de complexidade social.

         Para esta comunicação a primeira assunção não se coloca, já que iremos apenas referir uma região relativamente pequena e circunscrita, onde aparentemente os discursos poderão ser homogéneos. A questão coloca-se mais na procura de continuidades ou descontinuidades culturais; até que ponto a investigação deste período, nesta região, produziu um conjunto de materialidades que hoje nos permite refletir sobre a dinâmica inerente a um discurso baseado nos objetos. À partida, apenas este indicador é redutor para as múltiplas leituras que a arqueologia visibiliza. A paisagem, a mobilidade, os contextos arquitectónicos e a sua implantação geomorfológica, assumem-se como espaços de ação humana que eventualmente traduzem ações sociais, entre elas a negociação de poder, a negociação de "lideranças emergentes" que parece acontecer ao longo da primeira metade do 2º milénio AC, ao longo daquilo que tradicionalmente chamamos de bronze antigo.

         Esta última ideia remete-nos para o segundo conceito exposto no primeiro parágrafo; "complexidade social". Como ler no chamado registo arqueológico a complexidade social? Que indicadores utilizar? Desde finais do século passado que investigadores admitem que "complexidade", e mesmo intensificação, interação e hierarquização (tão caras a um discurso de pendor processual), expressam-se na progressiva visibilização das materialidades, associadas ao poder, mormente na riqueza e diversidade de contextos sepulcrais, materialidades de exceção e aparecimento de diferentes objectos. Sintetizando, o fenómeno da complexidade social correlaciona-se com novos e diferentes cenários de ações sociais que deixam uma marca visível no registo arqueológico.

         A região tratada nesta comunicação terá consigo estes indicadores que nos farão encaminhar a reflexão para fenómenos de complexidade e hierarquização social? Ou será que as leituras visibilizadas pela arqueologia poderão ser múltiplas e problematizantes, onde a permanente colocação de questões se torne um ponto essencial da investigação?

         A atenção dada à paisagem, a um território específico, neste caso no Alto Douro português, com um enfoque particular na área a sul do Douro e entre o rio Torto a Oeste e a fronteira espanhola a Este, e a Norte com os concelhos ribeirinhos aquele rio e a Sul até à Serra da Marofa, torna-se importante. Que materialidades existem que possam ser indexadas à idade do Bronze, que contextos, que sítios arqueológicos, onde estão implantados. Partiremos da cartografia de sítios e achados e da sua análise e discussão. Aqui daremos atenção aos sítios bem conhecidos, já escavados ou em processo de escavação; Castelo Velho de Freixo de Numão e Castanheiro do Vento, mas também temos de ter em conta os outros lugares e as suas implantações, Castelo Velho de Monte Meão, Quinta de Alfarela, Alto da Lamigueira, entre outros. Por outro lado, a reflexão relativa às estelas recolhidas nesta área será outro elemento importante deste trabalho que nos permite aumentar o quadro das materialidades e dos seus contextos. Desta forma poderemos refletir sobre as materialidades, as paisagens e os contextos, poderemos ensaiar discursos, e sugerir respostas.

 

* Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Património Cultural.

 

 

 

O Bronze Final da Baixa Estremadura

 

 João Luís Cardoso *

 

Resumo

 

Apresenta-se uma síntese das características do povoamento do território a norte do estuário do Tejo, no decurso do Bronze Final, entre os séculos XIII e IX a.C., com base em diversos sítios, tanto de altura como de encosta ou planície (“casais agrícolas”) onde o autor interveio no decurso das últimas décadas.

Os espólios recolhidos em tais locais permitem conclusões sobre as actividades económicas dominantes em cada um deles, consoante as suas características, associando-as à realidade social então vigente, tendo presente a existência de uma sociedade claramente segmentária, e em processo de acelerada diferenciação interna, conforme se evidencia pelo respectivo registo material.

A realidade económica e social assim caracterizada será integrada em contextos mais alargados, tanto à escala do ocidente peninsular, como em regiões extra-peninsulares, conferindo-lhe maior significado e consistência.

As práticas rituais e funerárias então vigentes serão igualmente caracterizadas, com base nas escassas evidências conhecidas, algumas delas até agora inéditas.

 

* Universidade Aberta e Centro de Estudos Arqueológicos do Concelho de Oeiras (Câmara Municipal de Oeiras).

 

 

 

Intermitências: a Arte e a Idade do Bronze no Ocidente peninsular

 

 Lara Bacelar *

 

Resumo

 

"Temos a arte para não morrer da verdade."

F. Nietzsche

 

A investigação da arte pré-histórica lida com tempos e espaços dilatados, com paisagens etéreas impregnadas de testemunhos de múltiplas dinâmicas cognitivas, culturais e sociais. Talvez mais do que quaisquer outros vestígios ao dispor do arqueólogo, a arte é a face visível do poder que o ser humano tem de criar de outras realidades para além da do mundo físico, do seu pensamento abstracto e metafórico. Mas, paradoxalmente, o véu de opacidade existente entre a materialidade visível do objecto e o que pode ser compreendido, analisado e interpretado pelo sujeito, aliado ao próprio devir epistemológico e historiográfico da disciplina, circunscrevem o leque de conteúdos passíveis de serem estudados ao que é observável (iconografia, técnicas de execução, implantação na paisagem, contextos arqueológicos), deixando pouco espaço para o sujeito que interpreta se debruce sobre o que é invisível e imaterial e de recorrer, para tal, à subjectividade que, à imagem dos criadores dessa arte ancestral, também lhe é inerente.

Sobre as manifestações artísticas criadas, fruídas, ritualizadas, apropriadas durante o período convencionalmente designado Idade do Bronze, a ênfase vem sendo dada aos seus elementos mais visíveis e que, de forma objectiva, podem ser datados desta fase.

Em contraste com outros períodos cronológicos, a arte da Idade do Bronze sempre assumiu um papel relevante na investigação arqueológica mainstream. Isto deve-se, em grande medida, às possibilidades abertas para a sua plena integração nas temáticas que tradicionalmente se estabeleceram como centrais nos estudos sobre a Idade do Bronze, focalizados no estudo das armas e objectos metálicos. A representação gráfica destes objectos em afloramentos naturais e peças escultóricas, a par da associação, embora muito pontual, destas últimas a contextos arqueológicos coevos, favoreceu essa centralidade. Porém, se o debate sobre a arte da Idade do Bronze que emana da Arqueologia mainstream tende a gravitar em torno destes dois temas, a investigação desenvolvida no âmbito da especialidade de arte rupestre, tende a restringir-se a fenómenos unitários e a uma perspectiva restrita em termos espaciais, para além de sobrevalorizar a presença da representação dessas mesmas armas metálicas no repertório figurativo das grandes tradições artísticas na elaboração de propostas de enquadramento cronológico.

Assumindo-se esta síntese como um contributo para o estudo das dinâmicas sociais e culturais na Idade do Bronze (implicando isto um olhar sobre o ‘antes e o ‘depois’) procuraremos apartar-nos das temáticas centrais e reflectir sobre questões que se podem considerar periféricas porque escassamente abordadas. Parte-se da ideia de que o exercício de compreensão de uma realidade não a partir do centro mas da inquietude das periferias poderá trazer uma nova luz sobre essa mesma realidade.

Nesta síntese procurar-se-ão analisar as continuidades e descontinuidades inerentes aos fenómenos artísticos de longa duração e aos que surgem ex novo na Idade do Bronze, reflectir sobre os espaços de interacção e a relação estilística entre estes e as grandes tradições artísticas de arte rupestre no Ocidente peninsular, através da observância de escalas de análise conceptuais, temporais e espaciais amplas e dialécticas.

A incorporação de figurações de objectos e armas metálicas tipifica, de facto, a arte a partir de finais do 3º e inícios do 2º milénio a.n.e., assim como a diversificação dos suportes e a evocação da figura humana na escultura, que assume maior preponderância relativamente a períodos anteriores. Partindo da distribuição e caracterização das grandes tradições de arte rupestre com origem anterior à Idade do Bronze, percorreremos as diferentes regiões do território português com o objectivo de reflectir sobre as continuidades e rupturas, problemáticas em torno da visibilidade e invisibilidade de referências objectivas que possibilitem a inserção cronológica das manifestações. Procuraremos ainda debruçarmo-nos sobre a questão de se o estudo da arte permitirá identificar indícios de um rompimento da ordem simbólica durante a Idade do Bronze, ou seja, de uma revolução simbólica que, no sentido que lhe é dado por Pierre Bourdieu, se bem sucedida, altera as categorias de percepção usadas para compreender as representações do mundo e o próprio mundo, num determinado contexto social e temporal, transformando assim as estruturas cognitivas e, em certa medida, também as estruturas sociais.

 

* Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património – CEAACP.

 

 

 

As práticas de construção/deposição de estruturas em negativo durante a Idade do Bronze no Alentejo Interior

 

 Lídia Baptista *

 

Resumo

 

O quadro de conhecimento sobre a Idade do Bronze no interior alentejano sofreu, nos últimos 15 anos, uma grande transformação. Os recentes trabalhos de arqueologia de Salvamento, principalmente relacionados com os planos de rega implementados na região pela EDIA, S.A., têm revelado um conjunto de estações arqueológicas exclusivamente com arquitetura em negativo. Assim, a par da arquitetura dos “monumentos funerários” tipo cista (com ou sem tumulus) e dos “povoados fortificados”, os sítios de estruturas em negativo parecem tratar-se de um frequente e importante modo de marcação da paisagem, revelando uma nova imagem da Idade do Bronze da região.

 

Partindo de uma base empírica resultante de um conjunto de trabalhos realizado no âmbito da arqueologia de Salvamento acima mencionada, pretende-se trazer a esta mesa-redonda uma discussão alicerçada em três tópicos de estudo, que nos encontramos a desenvolver:

  • a morfologia e organização espacial das estruturas em negativo;
  • a sua inserção cronológica;
  • e as práticas de construção/deposição relacionadas estas estruturas.

 

No que diz respeito à morfologia destes dispositivos, podemos considerar duas grandes categorias: os hipogeus e as fossas. Entenda-se por hipogeu uma estrutura compósita, constituída por uma ante-câmara (ou átrio) e uma ou duas câmaras funerárias. As ante-câmaras podem ser de planta sub-circular (por vezes ovalada), sub-quadrangular e sub-retangular; estes espaços apresentam perfis escalonados, rampeados ou sobreelevados em relação à base da câmara, podendo estar em articulação com uma fossa pré-existente. As plantas das câmaras são tendencialmente sub-circulares, apresentado-se enquanto espaços subterrâneos que se encontravam selados e impermeabilizados por um fecho pétreo e argila. As deposições funerárias ocorrem no interior das câmaras, onde um ou mais cadáveres são depositados, maioritariamente, em posição fetal; os cadáveres encontram-se acompanhados por oferendas diversas (vasos cerâmicos, utensílios metálicos e oferendas cárneas). Não se tratam apenas de sepulcros individuais, mas também de sepulcros onde são sepultados diversos indivíduos, ao longo do tempo.

 

As fossas correspondem ao tipo morfológico mais frequente e diversificado. Trata-se de estruturas de planta tendencialmente sub-circular com uma grande variabilidade de perfis (cilíndricos, trapezoidais, em “saco”, globulares, por exemplo). Os diâmetros e as profundidades destas estruturas é igualmente variável. As fossas, ao contrário dos hipogeus, comportam contextos funerários e não funerários. Como veremos, algumas fossas apresentam níveis e concentração de materiais que remetem para uma complexa interação de práticas.

 

No que diz respeito à organização espacial definida por este tipo de estruturas, é necessário ter presente que as áreas escavadas em cada um dos sítios são díspares. Assim, se existem sítios cujas áreas escavadas são consideráveis, noutros sítios as áreas intervencionadas foram reduzidas, correspondendo a corredores lineares de condutas. Deste modo, a análise da organização espacial dos sítios encontra-se muito condicionada. Contudo, podemos avançar que estes dois tipos de estruturas, fossas e hipogeus, podem partilhar o mesmo espaço, como por exemplo no sítio de Montinhos 6 (Serpa), mas também podem surgir, aparentemente, isolados, como por exemplo Maria da Guarda 3 (Serpa) ou Horta de Jacinto (Beja).

 

No estudo da cronologia dos sítios, realce-se que:

a)    os sítios em questão não possuem estratigrafia horizontal, encontrando-se as estruturas abertas ao nível do topo do substrato geológico, sem relações estratigráficas entre si (salvo raras exceções);

b)    as datações absolutas entretanto disponíveis são, maioritariamente, provenientes de contextos funerários, ficando um número elevado de estruturas sem uma atribuição cronológica mais fina;

c)    o estudo exaustivo da componente artefactual, que poderia colmatar a falta de datações absolutas, não existe, ou é parcial, ou encontra-se em preparação.

Considerando, então, os dados disponíveis, são os contextos funerários que nos podem fornecer mais dados sobre continuidades ou descontinuidades entre o período antecedente e ao longo da Idade do Bronze. Refira-se que em associação a este estudo das práticas funerárias, encontra-se em desenvolvimento o estudo da atividade metalúrgica.

 

Quanto às práticas de construção/deposição, nas quais se incluem as práticas de inumação, têm sido estudadas de forma diferencial. Os contextos não-funerários encontram-se, na sua maioria, fora da discussão da comunidade científica. Contudo, é importante referir que as fossas apresentam, por vezes, níveis e concentrações de materiais formalizados. A presença destas concentrações e níveis de materiais remete-nos para práticas de enchimento que parecem estar em associação a práticas de deposição que se entrelaçam nas práticas de construção dos enchimentos destas estruturas. Com efeito, algumas das estruturas apresentam um conjunto de fragmentos cerâmicos, ou partes de vasos, concentrados em diferentes partes da estrutura; por vezes, as estruturas apresentam também diferentes partes do mesmo recipiente distribuído por diferentes depósitos de enchimento; a análise dos fragmentos permite constatar que, em alguns casos, é possível estabelecer colagens entre estruturas. No seu conjunto, as várias concentrações e níveis de materiais remetem para uma “biografia” onde esses materiais são manipulados em diferentes cenários que “culmina” na sua deposição no interior destas estruturas.

         Em suma, pretendemos apresentar alguns exemplos das práticas que ocorrem nestas estruturas trazendo à discussão um “mundo em negativo” que caracteriza não só a Idade do Bronze desta região, mas os períodos pré-históricos antecedentes, correspondendo a uma tradição arquitetónica que revela uma constante revisitação e negociação de práticas.

 

* Arqueologia e Património Lda.

 

 

 

Os senhores da planície. A ocupação da Idade do Bronze nos “Barros de Beja” (Baixo Alentejo, Portugal)

 

 Miguel Serra *

 

Resumo

 

As escavações arqueológicas efetuadas no povoado fortificado do Bronze Final do Outeiro do Circo (Beja) servem de ponto de partida para uma análise às formas de ocupação da Idade do Bronze, na região de planície situada a oeste da cidade de Beja e marcada pela fertilidade dos solos, conhecidos como “Barros Pretos”.

O Outeiro do Circo, já conhecido na bibliografia sobre a Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular devido à sua dimensão e localização privilegiada, foi alvo de diversos estudos no âmbito do projeto de investigação “A transição Bronze Final / I Idade do Ferro no Sul de Portugal: o caso do Outeiro do Circo” entre 2008 e 2013. Entre os principais resultados destacam-se a revisão da área ocupada, atualmente cifrada nos 17 hectares ou a identificação de um complexo sistema defensivo que integra muralhas, fossos e bastiões, onde se inclui a escavação de um troço de “muralha compósita”.

A dimensão e destaque que esta muralha assumiria numa região pautada por relevos suaves e onde facilmente o domínio visual alcança várias dezenas de quilómetros, constituem os principais pontos de análise deste trabalho, procurando demonstrar a importância desta estrutura para a criação de coesão social (através da mobilização de largos efetivos populacionais para a sua construção), mas também para a coerção (através da criação de cenários de afirmação do poder de uma elite dominante) junto das comunidades que pontuariam este território durante a última etapa da Idade do Bronze.

Este aspeto remete para outro elemento de análise, indispensável à compreensão da importância regional de um povoado com estas caraterísticas, ou seja, o estudo do território envolvente e das formas de ocupação que aí se efetivaram, numa perspetiva diacrónica, capaz de auxiliar a procura das mudanças e permanências ocorridas no seio destas sociedades e observáveis através das suas expressões arquitetónicas.

Assim, procuraremos analisar como se processou o fenómeno de transposição do investimento coletivo na construção dos espaços sepulcrais no Bronze Médio, materializado nas dezenas de necrópoles de cistas conhecidas para esta região, para a construção de grandes obras defensivas em vastos povoados localizados no topo de colinas, durante o Bronze Final. Todavia, também olharemos para outras formas de ocupação mais discretas, que ajudam a preencher o quadro geral do povoamento, como os recentemente identificados povoados abertos de planície, de onde os grandes investimentos construtivos parecem estar ausentes.

Por fim, analisaremos o fim deste mundo, que terá atingido o seu apogeu durante o Bronze Final, através da estruturação, organização, hierarquização e consolidação de um modelo de povoamento, e que verá o seu colapso durante o 1º quartel do I milénio a. C. devido ao impacto provocado pelos contactos coloniais, de que encontramos expressão numa série de necrópoles na envolvente próxima do Outeiro do Circo.

 

* Palimpsesto, Lda. Projeto Outeiro do Circo. miguelserra@palimpsesto.pt.

 

 

 

Para uma aproximação às dinâmicas de transformação das sociedades da Idade do Bronze entre o Zêzere e o Atlântico (dos inícios do II aos inícios do I milénio a.n.e.)

 

 Paulo Félix *

 

Resumo

 

Durante algumas décadas, a região centro-litoral foi uma das principais fornecedoras de dados para a caracterização da Idade do Bronze no território actualmente português: fosse através dos achados mais ou menos (des)contextualizados de artefactos metálicos, dos materiais depositados nas cavidades do Maciço Calcário Estremenho ou das parcas informações recolhidas em sítios de habitat de diversa índole, este vasto espaço geográfico situado entre o Tejo e o Mondego assumiu alguma preponderância na investigação do segundo e inícios do primeiro milénio a.n.e., sobretudo no último quartel do século passado e, quase exclusivamente, focalizada nos momentos finais deste período. Julgamos que muita dessa preponderância foi, em algumas ocasiões, exagerada em comparação com a quantidade e qualidade dos dados que, em simultâneo, se elaboravam noutras regiões peninsulares e, inclusive, dentro das fronteiras do nosso país.

Hoje, quase atingida a metade da segunda década do século XXI, muito mudou na investigação histórica e arqueológica, muito mais informação se acumulou, muito mais gente se viu envolvida na recolha e tratamento desta informação, ainda que nem sempre de modo sistemático e duradouro, e muitos mais contextos foram dados à estampa ou passaram a fazer parte das bases de dados das instituições académicas, das empresas e dos serviços nacionais de gestão do Património Cultural.

Neste trabalho, propomos a realização de um estudo de síntese que caracterize a evolução das sociedades que, durante a Idade do Bronze, fizeram suas as terras situadas no sector meridional da Beira Litoral e norte do Ribatejo, limitadas, a nascente, pelos rios Zêzere e Tejo, a norte, pelo rio Mondego, a oeste, pelo Atlântico, e, a sul, por um paralelo convencional que passa pela extremidade sudoeste do Maciço Calcário Estremenho. É uma área ampla, diversificada, que permite uma avaliação mais abrangente das estratégias de implantação das distintas modalidades de ocupação e controlo do território ao longo da diacronia.

Será dada particular atenção ao registo material das realidades detectadas, seja na sua expressão móvel, seja no capítulo das soluções físicas de marcação e delimitação do espaço, como forma de investigação das dinâmicas de transformação (e eventual persistência) das estruturas sociais, político-ideológicas e económicas destas sociedades e de construção de um quadro cronológico evolutivo que possibilite o devido enquadramento daquelas realidades em balizas temporais bem definidas, se tal for o caso.

 

* Colaborador da EMERITA – Empresa Portuguesa de Arqueologia, Unip. Lda. pfelix_pt@yahoo.com.br.

 

 

 

A Idade do Bronze em fossas no nordeste português. O caso do Terraço da Foz do Medal (vale do Sabor)

 

 Rita Gaspar*1, Joana Carrondo *1 *2, Luís Nobre*1 *2, Zélia Rodrigues*3, Glória Donoso*1, João Tereso*4, Maria Martin-Seijo*5, Cleia Detry*6

 

Resumo

 

No âmbito da execução do programa de sondagens de diagnóstico nos terraços fluviais do vale do Sabor foram identificados os vestígios de uma ocupação da Idade do Bronze no Terraço da Foz do Medal (Meirinhos, Mogadouro). A intervenção decorreu da implementação das medidas de minimização de impactes decorrentes da construção do Aproveitamento Hidroeléctrico do Baixo Sabor (AHBS) através do desenvolvimento do Plano de Salvaguarda do Património (PSP) desenhado especificamente para este empreendimento.

A identificação de um primeiro enterramento e de algumas fossas abertas nos sedimentos de matriz fina do terraço fluvial levou a um ajuste da metodologia e consequente escavação de um importante conjunto de estruturas negativas no nordeste de Portugal.

Foram identificadas 69 estruturas negativas tipo fossas, apresentando diferentes dimensões e morfologias. Em cinco delas foram encontrados seis enterramentos (tendo em conta a presença de um enterramento duplo). Associadas a este conjunto de fossas encontraram-se ainda algumas estruturas de combustão. Deve-se salientar a escassez de material associado à ocupação tendo sido, no entanto, identificado algum material carpológico e antracológico no interior dessas estruturas.

A implantação desta ocupação dá-se numa plataforma em fundo de vale, a uma cota baixa relativamente ao curso de água principal (rio Sabor) e na confluência com um curso de água subsidiário (ribeira do Medal). Este tipo de implantação não estava ainda identificada na região até ao desenvolvimento dos trabalhos no Baixo Sabor. Pretende-se discutir esta seleção espacial, a utilização deste tipo de estruturas e a densidade da sua implantação a nível regional

 

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer a EDP, entidade promotora do Aproveitamento Hidroeléctrico do Baixo Sabor, a Baixo Sabor ACE - Odebrecht, Bento Pedroso construções S.A. e Lena construções, consórcio construtor, às empresas Archeoestudos e Arqueologia e Património, parceiras na escavação arqueológica, e a todos os arqueólogos e técnicos envolvidos nos trabalhos.

 

*1 Baixo Sabor-ACE. E-mail: ritantunesgaspar@gmail.com

*2 UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

*3 Arqueologia e Património, Lda.

*4 CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos genéticos / Universidade do Porto

*5 Faculdade de Ciências da Universidade do Porto / Grupo de Estudos para a Prehistória do Noroeste Ibérico. Universidade de Santiago de Compostela

*6 UNIARQ, Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa