Apresentação

 A Finitude e as Formas Decorrentes do seu Tratamento na Pré-História Recente

 A morte provoca no ser humano uma vulnerabilidade que, conjuntamente com o medo do desconhecido, ocasiona um tratamento singular sobre o ente que partiu. Paralelamente a esta sensação de insegurança vemos surgir uma vontade de organizar de forma sistemática o lugar dos mortos, seja ostensivamente, como no caso dos monumentos megalíticos, seja na dissimulação da paisagem, como é o caso das grutas-necrópole, cistas e  tumuli.

É numa sociedade definida por determinados parâmetros que observamos o tratamento da morte como um privilégio de tratamento individualizado, ainda que continuemos no Neolítico e no Calcolítico com a concepção de colectivização da morte. Esse tratamento pode ter tomado formas de religiosidade na qual o indivíduo se torna cada vez mais importante, sendo que essa importância, se reflecte na forma como é tratado o seu corpo. Todavia, os dados arqueográficos demonstram-nos que o tratamento do cadáver parece ter tido sempre uma vertente determinante, quer se trate de um enterramento colectivo em fossa ou ossuário.

Parece, no caso do megalitismo, durante o Neolítico e o Calcolítico, que estamos a venerar o antepassado comum com o acolhimento que se faz nas câmaras e corredores, ao passo que quando observamos o tratamento individual do cadáver passamos reflexivamente a venerar apenas o indivíduo. Somos obrigados a reflectir na possibilidade de, ao observarmos o tratamento individualizado do cadáver, estarmos também perante um sistema onde a propriedade se relaciona com a transmissão da herança, na qual a sociedade se determina cada vez mais por vínculos de parentesco.

Se optarmos por considerar os monumentos funerários como guardiões da memória (colectiva ou individual) podemos estar perante uma situação referenciada por Bradley (1991) na qual existe uma distinção entre um tempo diário e um tempo ritual. O tempo ritual será um tempo que existe no abstracto não-mensurável, mas que impõe um nexo causal entre o passado e o presente tornando-se num transmissor de tradição e de cultura.

No apogeu do megalitismo vemos que existe um sentido, ou uma mensagem transmitida através das construções monumentais, sentido esse que se pode revelar através da apropriação territorial efectuada pelas comunidades agro-pastoris neolíticas. Se por um lado, houve uma atitude de impor territorialidade, vemos também que a densidade e a clara visibilidade dos mesmos transformaram e inventaram uma nova paisagem.

As comunidades da Idade do Bronze poderiam ter herdado um sistema de crenças baseado no simbólico neolítico e também um determinado ordenamento do território marcadamente neolítico e calcolítico. Esta herança foi de tal forma forte que influenciou a continuação, em alguns casos, de enterramentos nos megálitos. É muito provável que o sentido de apropriação se reflectisse na tradição oral e nas associações simbólicas com a morte. Todavia, uma nova forma de ver a morte surge indubitavelmente, com a deposição em cista e mais tarde com o processo de incineração, como com uma nova monumentalização invisível do espaço funerário traduzindo assim novas concepções ideológicas e da forma de ver a morte, muito embora arquitectonicamente se mantenha a noção de mamoa.

Mas o caso dos monumentos megalíticos não é excepção, vamos, por outro lado, observar a continuação da utilização funerária de grutas ou lapas neste período. O caso das cavidades cársicas naturais torna-se, por outro lado, muito interessante uma vez que se relaciona directamente e num plano inicial com a nossa actividade sensorial. Desde logo, ao entrar nestes espaços, por vezes escuros e silenciosos, e por vezes plenos de humidade, implica uma “preparação” psicológica para deixarmos a luz para trás e nos embrenharmos no interior, implica ainda uma preparação emocional para enfrentarmos uma adaptação e uma orientação que serão diferentes daquelas a que nos habituamos no exterior.

O estudo das realidades de contextos arqueográficos passados dá-nos uma percepção de como se construíram os sistemas de crenças e o universo simbólico gerando uma possibilidade de entendimento da forma como a morte era vista na Pré-História recente.

Podemos deduzir, antes de mais, que haveria uma participação comum da comunidade e dos parentes mais chegados, logo, estaríamos perante uma atitude participativa e activa por parte de todos os elementos do grupo nos vários momentos do evento fúnebre, ou seja, desde que o óbito é declarado, incluindo todos os momentos posteriores até que os rituais se completassem.

Muitas outras considerações podem ser tecidas. É o que esperamos que aconteça neste nosso encontro sobre as várias perspectivas de finitude.